quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Adeus.



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

5 comentários:

Capt- disse...

Lindo!

Excelente escolha musical para acompanhar.

Alex Page disse...

amei esse poema! diz tudo.

Menina disse...

Cláudia, obrigada por teres feito este blog, a sério =) Adoro mesmo vir aqui!!!

beijinho*

Anónimo disse...

Cláudia... meu deus... tá lindo!!!
Agora, sem mental break, és a unica esperança de alimentar a nossa loucura, neste caso, a nossa sanidade. Por favor continua, nem que venha postar todos os dias um comentário =P.
Beijos,
V.

Marga disse...

YAN TIERSEN <3