quarta-feira, 24 de julho de 2013

24072013

Esta precisão meticulosa. Da atenção excessiva aos fenómenos de causa-efeito. O que causou o quê, o que levou a quê, em torno do que gira o mundo, que interacções e relações em si contém.

Exploro de forma intensiva e extensiva, em tudo o que me rodeia, me compõe e o que respiro, o que sou, o que faz com que seja quem e o que sou, o que leva ao que acontece e o desenrolar dos eventos, porquê?

Creio sem qualquer dúvida em pequenas coisas, absurdas e sem o mínimo sentido, pela pura, impulsiva, diria mesmo instintiva necessidade de simplesmente poder compreender, saber, aprender, explicar, descrever e, em última análise, objectivo derradeiro, predizer. Assim, na minha busca constante pelo poder preditivo e intensa vontade de tudo poder controlar, crio energias em meu redor. Acabo por me auto-condicionar, com um sistema de crenças fortemente enraízadas, crenças que me dominam e, no fundo, identificam, como pano de fundo. Faço-o de um modo simultaneamente consciente e inconsciente, sei o que faço sem saber
bem o porquê, sem entender realmente as minhas próprias motivações.

E assim, perco-me, em mim mesma, como numa espiral, hora após hora, dia após dia, semana após semana, por momentos nem sinto que o tempo realmente passa, penso ao invés que o tempo é algo que simplesmente é.

Acabo por ser eu apenas, na minha expressão mais pura, do que eu sou, sem rodeios.

[https://www.youtube.com/watch?v=hlCn9_3Ip7k]

domingo, 7 de julho de 2013

«O Ano da Morte de Ricardo Reis», José Saramago - algumas citações



 Podia fazer uma review a este livro, podia fazer uma review a todos os livros que leio, mas para quê? As palavras do autor, ou pelo menos algumas delas, falam por si, dizem tudo o que há a dizer e ainda nos (ou pelo menos a mim) deixam a reflectir.

“ (…) o táxi arranca, o motorista quer que lhe digam, Para onde, e esta pergunta, tão simples, tão natural, tão adequada à circunstância e ao lugar, apanha desprevenido o viajante, como se ter comprado a passagem no Rio de Janeiro tivesse sido e pudesse continuar a ser resposta para todas as questões, mesmo aquelas, passadas, que em seu tempo não encontraram mais que o silêncio, agora mal desembarcou e logo vê que não, talvez porque lhe fizeram uma das duas perguntas fatais, Para onde, a outra, e pior, seria, Para quê.”

“Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. “

“A evidência da morte é o véu com que a morte se disfarça”.

“E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que se mantém constante, nada mais.”

“As coisas da fisiologia são complicadas, deixemo-las para quem as conheça, muito mais se ainda for preciso percorrer as veredas do sentimento que existem dentro dos sacos lacrimais, averiguar, por exemplo, que diferenças químicas haverá entre uma lágrima de tristeza e uma lágrima de alegria, decerto aquela é mais salgada, por isso nos ardem os olhos tanto”.

“Ricardo Reis faz um gesto com as mãos, tacteia o ar cinzento, depois, mal distinguindo as palavras que vai traçando no papel, escreve, Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir, e tendo escrito não soube que mais dizer, há ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um certo
ponto, apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar como estão os deuses, calados e quietos, assistindo apenas.”

“(…) são assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase sempre quando já é tarde de mais para emendar os erros, os perigos e as faltas, bom jornal seria aquele que no dia um de Janeiro de mil novecentos e catorze tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia vinte e quatro de Julho, disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça, quem sabe se não iríamos a tempo, e melhor seria ainda se aparecesse publicada a lista dos que iriam morrer, milhões de homens e mulheres a ler no jornal da manhã, ao café com leite, a notícia da sua própria morte, destino marcado e a cumprir, dia, hora e lugar, o nome por inteiro, que fariam eles sabendo que os iam matar, que faria Fernando Pessoa se pudesse ler, dois meses antes, O autor da Mensagem morrerá no dia trinta de Novembro próximo, de cólica hepática, talvez fosse ao médico e deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber o dobro, para poder morrer antes.”


“O espelho, este e todos, porque sempre devolve uma aparência, está protegido contra o homem, diante dele não somos mais que estarmos, ou termos estado, como alguém que antes de partir para a guerra de mil novecentos e catorze se admirou no uniforme que vestia, mais do que a si mesmo se olhou, semsaber que neste espelho não tornará a olhar-se, também é isto a vaidade, o que não tem duração. Assim é o espelho, suporta, mas, podendo ser, rejeita. Ricardo Reis desviou os olhos, muda de lugar, vai, rejeitador ele, ou rejeitado, virar-lhe as costas. Porventura rejeitador porque espelho também.”


"(...) porque certas perguntas são feitas apenas para tornar mais explícita a ausência de resposta".

Hoje é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas entretidas a debater consigo mesmas as boas acções que tencionam praticar no ano que entra, jurando que vão ser rectas, justas e equânimes, que da sua emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia, ainda que as merecesse o inimigo, claro que é das pessoas vulgares que estamos falando, as outras, as de excepção, as incomuns, regulam-se por razões suas próprias para ser em e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo nos primeiros dias de Janeiro teremos esquecido metade do que havíamos prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor é que caia tudo e se confundam os naipes.”

“Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.”

“(…) finalmente o ponteiro dos minutos cobre o ponteiro das horas, é meia-noite, a alegria duma libertação, por um instante breve o tempo largou os homens, deixou-os viver soltos, apenas assiste, irónico, benévolo, aí estão, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso, são esses os beijos melhores, os que não têm futuro.”



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Der Himmel kann warten - Teil 1



Radiohead : Nude (In Rainbows, 2007)
Thom Yorke : Harrowdown Hill (The Eraser, 2006)
Tricky : Nothing's Changed (False Idols, 2013) 
Massive Attack : Atlas Air (Heligoland, 2010) 
Portishead : Nylon Smile (Third, 2008) 
Radiohead : All I Need (In Rainbows, 2007) 
Nine Inch Nails : The Frail / The Wretched (And All That Could Have Been, 2002) 



quarta-feira, 22 de maio de 2013

poema #2

Esmagador 
Ensurdecedor 
Este silêncio absoluto 
E o absurdo 
Desta banal e repetida 
Existência 
Corrói, como ácido, 
Todo e qualquer equilíbro. 

Caminho em direcção ao Caos. 
E a desordem total 
Apodera-se de mim. 
Gosto de sentir a liberdade 
Em estado puro. 

Mas 
É demasiada e dói. 
Queima. 
Quero um pouco menos. 
Um pouco menos de tudo. 
Um pouco menos de nada. 
Um pouco menos disto. 

 Estou condenada à trivialidade 
Da minha própria mente 
Como um corredor da morte 
Que acaba num completo acaso 
Na completa falta de sentido. 
Neste quarto existem 
Buracos negros
Vazios que doem. 
Silêncios que gritam. 
Lacunas por preencher.

sábado, 18 de maio de 2013

poema #1

o que foi, o que é
o que podia ter sido,
é a minha realidade.

estou (completamente)

perdida
num mar de incertezas,
das minhas incertezas.

insignificantes,

esmagam-me,
todos os dias, a todas as horas,
vagas,
porque não quero preenchê-las.

não fico, não vou,

não sei, não vivo.

tudo vai dar ao mesmo,

no final das coisas.

Escrito há muitos anos atrás mas ainda com o seu quê de verdade.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

There were people who read and there were the others

“There were people who read and there were the others. Whether you were the a reader or a non-reader was soon apparent. There was no greater distinction between people.”
Pascal Mercier


Das coisas mais certas que eu já li. Podem chamar-me de arrogante ou do que quiserem, mas eu sei sempre distinguir uma pessoa que nunca leu um livro na vida (nem um capítulo) de uma que já leu. Aqui, penso que o ler seja uma metáfora para uma atitude mais geral de interessar-se pelas coisas, ir um pouco mais além do que o comum, ter um olhar mais crítico, uma perspectiva mais trabalhada, de quem se nota que a pessoa pensou nisso, que procurou, que teve interesse em saber mais. E escusado será dizer qual delas (pessoas) a mais interessante e de que tipo de pessoa eu tento encher a minha vida, e de que tipo de pessoa eu tento evitar por não acrescentar nada nem me trazer nada de novo, nenhum conhecimento novo, absolutamente nenhum aprendizado.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Nighttraing to Lisbon



“We leave something of ourselves behind when we leave a place, we stay there, even though we go away. And there are things in us that we can find again only by going back there.”
Pascal Mercier, Night Train to Lisbon

“Life is not what we live; it is what we imagine we are living.”
Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
“Sometimes, we are afraid of something because we're afraid of something else. ”
Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
  

“Human beings can't bear silence.It would mean that they would bear themselves.”
Pascal Mercier, Night Train to Lisbon

“I love tunnels. They 're the symbol of hope: sometime it will be bright again.
If by chance it is not night.”
Pascal Mercier, Night Train to Lisbon  


“We are stratified creatures, creatures full of abysses, with a soul of inconstant quicksilver, with a mind whose color and shape change as in a kaleidoscope that is constantly shaken.”
Pascal Mercier 

Recomendo este filme, para quem gosta de um bom drama e é amante de filosofia (e um pouco de história e um pouco de política).

(Muito pouca gente, portanto, visto que hoje em dia só se interessam por comédiazecas românticas sem qualquer conteúdo e filmes de acção sem interesse nenhum.)