Esta precisão meticulosa. Da atenção excessiva aos fenómenos de causa-efeito. O que causou o quê, o que levou a quê, em torno do que gira o mundo, que interacções e relações em si contém.
Exploro de forma intensiva e extensiva, em tudo o que me rodeia, me compõe e o que respiro, o que sou, o que faz com que seja quem e o que sou, o que leva ao que acontece e o desenrolar dos eventos, porquê?
Creio sem qualquer dúvida em pequenas coisas, absurdas e sem o mínimo sentido, pela pura, impulsiva, diria mesmo instintiva necessidade de simplesmente poder compreender, saber, aprender, explicar, descrever e, em última análise, objectivo derradeiro, predizer. Assim, na minha busca constante pelo poder preditivo e intensa vontade de tudo poder controlar, crio energias em meu redor. Acabo por me auto-condicionar, com um sistema de crenças fortemente enraízadas, crenças que me dominam e, no fundo, identificam, como pano de fundo. Faço-o de um modo simultaneamente consciente e inconsciente, sei o que faço sem saber
bem o porquê, sem entender realmente as minhas próprias motivações.
E assim, perco-me, em mim mesma, como numa espiral, hora após hora, dia após dia, semana após semana, por momentos nem sinto que o tempo realmente passa, penso ao invés que o tempo é algo que simplesmente é.
Acabo por ser eu apenas, na minha expressão mais pura, do que eu sou, sem rodeios.
[https://www.youtube.com/watch?v=hlCn9_3Ip7k]
quarta-feira, 24 de julho de 2013
domingo, 7 de julho de 2013
«O Ano da Morte de Ricardo Reis», José Saramago - algumas citações
Podia fazer uma review a este livro, podia fazer uma review a todos os livros que leio, mas para quê? As palavras do autor, ou pelo menos algumas delas, falam por si, dizem tudo o que há a dizer e ainda nos (ou pelo menos a mim) deixam a reflectir.
“
(…) o táxi arranca, o motorista quer que lhe digam, Para onde, e esta pergunta,
tão simples, tão natural, tão adequada à circunstância e ao lugar, apanha
desprevenido o viajante, como se ter comprado a passagem no Rio de Janeiro
tivesse sido e pudesse continuar a ser resposta para todas as questões, mesmo
aquelas, passadas, que em seu tempo não encontraram mais que o silêncio, agora
mal desembarcou e logo vê que não, talvez porque lhe fizeram uma das duas
perguntas fatais, Para onde, a outra, e pior, seria, Para quê.”
“Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa
ou sente, e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar
e sentir não há mais nada. “
“A evidência da morte é o véu com que a morte se disfarça”.
“E as pessoas nem sonham que quem acaba uma coisa nunca é aquele
que a começou, mesmo que ambos tenham um nome igual, que isso só é que se
mantém constante, nada mais.”
“As coisas da fisiologia são complicadas, deixemo-las para quem as
conheça, muito mais se ainda for preciso percorrer as veredas do sentimento que
existem dentro dos sacos lacrimais, averiguar, por exemplo, que diferenças
químicas haverá entre uma lágrima de tristeza e uma lágrima de alegria, decerto
aquela é mais salgada, por isso nos ardem os olhos tanto”.
“Ricardo
Reis faz um gesto com as mãos, tacteia o ar cinzento, depois, mal distinguindo
as palavras que vai traçando no papel, escreve, Aos deuses peço só que me
concedam o nada lhes pedir, e tendo escrito não soube que mais dizer, há
ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um
certo
ponto,
apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos
no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar
como estão os deuses, calados e quietos, assistindo apenas.”
“(…) são
assim os periódicos, só sabem falar do que aconteceu, quase
sempre quando já é tarde de mais para emendar os erros, os perigos e as faltas,
bom jornal seria aquele que no dia um de Janeiro de mil novecentos e catorze
tivesse anunciado o rebentar da guerra para o dia vinte e quatro de Julho,
disporíamos então de quase sete meses para conjurar a ameaça, quem sabe se não iríamos
a tempo, e melhor seria ainda se aparecesse publicada a lista dos que iriam
morrer, milhões de homens e mulheres a ler no jornal da manhã, ao café com
leite, a notícia da sua própria morte, destino marcado e a cumprir, dia, hora e
lugar, o nome por inteiro, que fariam eles sabendo que os iam matar, que faria
Fernando Pessoa se pudesse ler, dois meses antes, O autor da Mensagem morrerá
no dia trinta de Novembro próximo, de cólica hepática, talvez fosse ao médico e
deixasse de beber, talvez desmarcasse a consulta e passasse a beber o dobro,
para poder morrer antes.”
“O
espelho, este e todos, porque sempre devolve uma aparência, está protegido contra
o homem, diante dele não somos mais que estarmos, ou termos estado, como alguém
que antes de partir para a guerra de mil novecentos e catorze se admirou no uniforme
que vestia, mais do que a si mesmo se olhou, semsaber que neste espelho não tornará
a olhar-se, também é isto a vaidade, o que não tem duração. Assim é o espelho, suporta,
mas, podendo ser, rejeita. Ricardo Reis desviou os olhos, muda de lugar, vai, rejeitador
ele, ou rejeitado, virar-lhe as costas. Porventura rejeitador porque espelho também.”
"(...) porque certas
perguntas são feitas apenas para tornar mais explícita a ausência de
resposta".
“Hoje
é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas
entretidas a debater consigo mesmas as boas acções que tencionam praticar no
ano que entra, jurando que vão ser rectas, justas e equânimes, que da sua
emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia,
ainda que as merecesse o inimigo, claro que é das pessoas vulgares que estamos
falando, as outras, as de excepção, as incomuns, regulam-se por razões suas
próprias para ser em e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou
aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das
boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo
nos primeiros dias de Janeiro teremos esquecido metade do que havíamos
prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o
resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor
é que caia tudo e se confundam os naipes.”
“Não
digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos
antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de
opinião e projecto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei
quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a
morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a
pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.”
“(…) finalmente
o ponteiro dos minutos cobre o ponteiro das horas, é meia-noite, a alegria duma
libertação, por um instante breve o tempo largou os homens, deixou-os viver
soltos, apenas assiste, irónico, benévolo, aí estão, abraçam-se uns aos outros,
conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso, são esses os
beijos melhores, os que não têm futuro.”
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Der Himmel kann warten - Teil 1
Radiohead : Nude (In Rainbows, 2007)
Thom Yorke : Harrowdown Hill (The Eraser, 2006)
Tricky : Nothing's Changed (False Idols, 2013)
Massive Attack : Atlas Air (Heligoland, 2010)
Portishead : Nylon Smile (Third, 2008)
Radiohead : All I Need (In Rainbows, 2007)
Nine Inch Nails : The Frail / The Wretched (And All That Could Have Been, 2002)
quarta-feira, 22 de maio de 2013
poema #2
Esmagador
Ensurdecedor
Este silêncio absoluto
E o absurdo
Desta banal e repetida
Existência
Corrói, como ácido,
Todo e qualquer equilíbro.
Caminho em direcção ao Caos.
E a desordem total
Apodera-se de mim.
Gosto de sentir a liberdade
Em estado puro.
Mas
É demasiada e dói.
Queima.
Quero um pouco menos.
Um pouco menos de tudo.
Um pouco menos de nada.
Um pouco menos disto.
Estou condenada à trivialidade
Da minha própria mente
Como um corredor da morte
Que acaba num completo acaso
Na completa falta de sentido.
Neste quarto existem
Buracos negros
Vazios que doem.
Silêncios que gritam.
Lacunas por preencher.
Ensurdecedor
Este silêncio absoluto
E o absurdo
Desta banal e repetida
Existência
Corrói, como ácido,
Todo e qualquer equilíbro.
Caminho em direcção ao Caos.
E a desordem total
Apodera-se de mim.
Gosto de sentir a liberdade
Em estado puro.
Mas
É demasiada e dói.
Queima.
Quero um pouco menos.
Um pouco menos de tudo.
Um pouco menos de nada.
Um pouco menos disto.
Estou condenada à trivialidade
Da minha própria mente
Como um corredor da morte
Que acaba num completo acaso
Na completa falta de sentido.
Neste quarto existem
Buracos negros
Vazios que doem.
Silêncios que gritam.
Lacunas por preencher.
sábado, 18 de maio de 2013
poema #1
o que foi, o que é
o que podia ter sido,
é a minha realidade.
estou (completamente)
perdida
num mar de incertezas,
das minhas incertezas.
insignificantes,
esmagam-me,
todos os dias, a todas as horas,
vagas,
porque não quero preenchê-las.
não fico, não vou,
não sei, não vivo.
tudo vai dar ao mesmo,
no final das coisas.
Escrito há muitos anos atrás mas ainda com o seu quê de verdade.
o que podia ter sido,
é a minha realidade.
estou (completamente)
perdida
num mar de incertezas,
das minhas incertezas.
insignificantes,
esmagam-me,
todos os dias, a todas as horas,
vagas,
porque não quero preenchê-las.
não fico, não vou,
não sei, não vivo.
tudo vai dar ao mesmo,
no final das coisas.
Escrito há muitos anos atrás mas ainda com o seu quê de verdade.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
There were people who read and there were the others
“There were people who read and there were the others. Whether you were
the a reader or a non-reader was soon apparent. There was no greater
distinction between people.”
― Pascal Mercier
Das coisas mais certas que eu já li. Podem chamar-me de arrogante ou do que quiserem, mas eu sei sempre distinguir uma pessoa que nunca leu um livro na vida (nem um capítulo) de uma que já leu. Aqui, penso que o ler seja uma metáfora para uma atitude mais geral de interessar-se pelas coisas, ir um pouco mais além do que o comum, ter um olhar mais crítico, uma perspectiva mais trabalhada, de quem se nota que a pessoa pensou nisso, que procurou, que teve interesse em saber mais. E escusado será dizer qual delas (pessoas) a mais interessante e de que tipo de pessoa eu tento encher a minha vida, e de que tipo de pessoa eu tento evitar por não acrescentar nada nem me trazer nada de novo, nenhum conhecimento novo, absolutamente nenhum aprendizado.
― Pascal Mercier
Das coisas mais certas que eu já li. Podem chamar-me de arrogante ou do que quiserem, mas eu sei sempre distinguir uma pessoa que nunca leu um livro na vida (nem um capítulo) de uma que já leu. Aqui, penso que o ler seja uma metáfora para uma atitude mais geral de interessar-se pelas coisas, ir um pouco mais além do que o comum, ter um olhar mais crítico, uma perspectiva mais trabalhada, de quem se nota que a pessoa pensou nisso, que procurou, que teve interesse em saber mais. E escusado será dizer qual delas (pessoas) a mais interessante e de que tipo de pessoa eu tento encher a minha vida, e de que tipo de pessoa eu tento evitar por não acrescentar nada nem me trazer nada de novo, nenhum conhecimento novo, absolutamente nenhum aprendizado.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Nighttraing to Lisbon
“We leave something of ourselves behind when we leave a place, we stay there, even though we go away. And there are things in us that we can find again only by going back there.”
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
“Life is not what we live; it is what we imagine we are living.”
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
“Sometimes, we are afraid of something because we're afraid of something else. ”
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
“I love tunnels. They 're the symbol of hope: sometime it will be bright again.
If by chance it is not night.”
― Pascal Mercier, Night Train to Lisbon
“We are stratified creatures, creatures full of abysses, with a soul of inconstant quicksilver, with a mind whose color and shape change as in a kaleidoscope that is constantly shaken.”
― Pascal Mercier
Recomendo este filme, para quem gosta de um bom drama e é amante de filosofia (e um pouco de história e um pouco de política).
(Muito pouca gente, portanto, visto que hoje em dia só se interessam por comédiazecas românticas sem qualquer conteúdo e filmes de acção sem interesse nenhum.)
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