terça-feira, 9 de outubro de 2012

Coisas que se devem fazer todos os dias

  • elogiar alguém; sorrir a um desconhecido num local público; dizer a alguém porque o/a admiramos e o quanto gostamos dele/a, ou o quão importante esta pessoa é para nós
  • fazer pausas frequentes para respirar, ao longo do dia; entrar em contacto connosco mesmos, sobretudo na hora de tomar decisões (podem ir desde a mais importante decisão, à mais corriqueira e do quotidiano); ouvir-nos a nós próprios, primeiro, antes dos outros, o que realmente queremos e precisamos, o que realmente importa para nós naquele momento, e não para os outros
  • reforçarmo-nos a nós próprios positivamente, por realizarmos tarefas que não queremos (obrigações) ou simplesmente por se ter feito algo de útil, productivo, bom, nesse dia; dar valor por ter feito algo que se gosta, que faz bem, ou em que simplesmente se é bom (por exemplo, tomar um banho de imersão ao fim de um dia cansativo, ou permitir-nos a nós próprios outro tipo de prazeres pessoais, isso fica ao critério de cada um)
  • recordar o ou um dos momentos em que nos sentimos mais felizes e entusiasmados na vida, com os olhos fechados; tomar consciência de que esse momento está gravado nas nossas células, de alguma forma, e que sempre podemos revivê-lo, nem que seja por breves instantes; fazer isto em momentos menos bons ajuda a ultrapassá-los e torna tudo muito mais interessante
  • ter uma lista de coisas que gosta de se fazer, podem ser coisas pequenas e insignificantes, e fazer uma delas por dia
  • substituir palavras/expressões negativas ou de baixa energia por palavras/expressões positivas ou de elevada energia, no nosso diálogo interior, bem como no diálogo com os outros; dizer "chega a horas" em vez de "não chegues atrasado", ou dizer para nós mesmos, perante uma situação que encaremos como difícil, "isto é desafiante e uma oportunidade de crescimento, de evolução", em vez de "isto é muito difícil" (retirado do livro: O Poder das Palavras, Yvonne Oswald)
  • olhar no espelho e pensar "eu sou o máximo!!!".

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

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Estava na paragem à espera do autocarro, a ler Caim, de José Saramago, esse grande senhor, não o senhor de que o autor fala com uma ironia, uma crítica e um sarcasmo subtilmente geniais, mas sim esse grande senhor que era Saramago, uma senhora com um ar simpático aparece e diz, Menina, posso falar um pouco consigo, enquanto espera pelo autocarro, ela tinha um ar simpático, eu acho as senhoras idosas extremamente fofinhas, apesar de saber que era uma testemunha de jeová não disse que não, e aí se deu o momento do dia que me vai servir de reflexão para o resto da semana. Ela diz, Menina, acredita em deus, Não, Mas acredita nalgum deus, Acredito no meu deus, sou espiritual, Acha que há um ser superior, portanto, mas não sabe qual é, Sim, Mas sabe que essa entidade superior tem um nome, Sim, Sabe qual é, Deus, Não minha querida, deus é um título, nomes só há um, Qual, Jeová, Hm, Quero dar-lhe a ler algumas passagens da bíblia, Está bem, e ela desfolha a bíblia, parece que sabe as páginas de cor, de trás para a frente e de frente para trás, não leva mais do que 2 segundos para chegar onde quer, dá-me a ler as passagens exactamente que descrevem o que ela me queria transmitir. Ela falou durante o tempo todo, sempre muito preocupada, Olhe o 745, não é este o seu autocarro, Não não, digo eu, com ar de quem não está muito preocupada, de 3 em 3 minutos ela diz, Olhe, não é este o seu autocarro, estava ela mais preocupada do que eu, eu que não tenho pressa para apanhar autocarro para lado nenhum, ela que acredita que eu tenho, no fundo, um destino, eu que não sei para onde vá, ela que acha que eu vou a algum lado. Claro que isto tem um sentido metafórico. Eu olhava para ela e pensava para comigo mesma, Ela tem um ar tão feliz, eu tenho um ar tão perdido, se calhar ela um dia já esteve como eu, revê-se em mim, não sabia em que acreditar, não sabia se havia de acreditar em algo ou se realmente havia algo para acreditar, não tinha nenhum autocarro para apanhar, encontrou a sua resposta na bíblia, a cara dela cheia de rugas dizem-me que muita experiência tem já, mas uns olhos brilhantes e resplandecentes de uma criança dizem-me que acabou de ver o mundo pela primeira vez e o acha maravilhoso, não consegue ver o mal, uma inocência de quem acredita profundamente naquilo que diz, numa ingenuidade profunda, feliz, uma alma completa foi o que vi naqueles olhos. Desafiei-a, Então diga-me lá, adão e eva foi quem deu origem ao mundo e ao que somos e conhecemos hoje, Sim querida, Eles reproduziram-se e tiveram dois filhos, Sim querida, E depois como é que os filhos deles se reproduziram para dar continuidade, tiveram de copular entre si, Sim, Então mas o incesto é um pecado, Sim querida mas naquela altura não era, não havia mais ninguém na terra, o senhor permitiu que assim sucedesse, como ele disse, crescei e multiplicai-vos. Não a contestei mais, apesar de achar esta uma das questões mais controversas da religião cristã, um pecado deu origem a tudo e agora é completamente condenado. Não quis destruir a ilusão nos olhos dela, mas resolvi desafiá-la novamente uns minutos mais tarde, enquanto ela falava no dia do juízo final, em que todos os maus iam morrer mas os fiéis iam ser salvos pelo senhor, e falando em todas as catástrofes mundiais, Então acha que a história do mundo se divide em fases, há pessoas, e depois há uma catástrofe, como a torre de babel que destruiu uma cidade inteira ou a inundação mundial que levou a que noé construisse a arca, e só um número limitado de pessoas merecedoras sobrevive, Sim, Também acho. Este também acho não foi de total concordância, devo dizer. Acredito que a terra tem destas fases, durante milhares de anos existem civilizações, intercaladas por grandes catástrofes a nível mundial a que ninguém, nem os bons nem os maus, sobrevivem, depois destas surgem novas civilizações. Mas não quis entrar por esses caminhos. Esse pensamento levou-me instantaneamente à teoria do eterno retorno de nietzsche, tudo retorna, tudo se repete, todos os elementos, todas as explicações, todos os acontecimentos, todas as existências. Fiquei existencialista, senti-me tentada a perguntar, Então, se tudo um dia vai acabar, porque estamos aqui, qual o sentido da existência, qual o propósito de tanto sofrimento, tanta emoção, tanta exaltação por que passamos, porquê este absurdo imenso de tudo, mas contive-me, sabia qual seria a resposta dela, Um reino de paz e amor e vida eterna, que jeová nos vai trazer de novo, onde não haverá pecado. O meu autocarro chegou. Agradeci-lhe por aquele momento, ela agradeceu-me a mim, disse, Gostei de falar consigo, é uma boa menina, talvez não acredite ainda mas deus está a olhar para si, tenha um bom dia, felicidades, Obrigada, para si também. No autocarro não ouvi música, não li, vim simplesmente a pensar, Gostei da senhora, não tentou impingir-me nada, ao contrário das outras que por aí tenho apanhado, apenas me explicou, com a maior inocência que eu já vi na vida, aquilo em que ela acredita profundamente, e foi por isso que não lhe disse, Desculpe, não tenho tempo, na maior mentira do mundo, porque, convenhamos, não tenho pressa para ir a lado nenhum, mesmo que ache que estou sempre atrasada para tudo. Pensei, novamente, E eu, ando perdida, talvez fosse melhor ser assim, crente, cega, ignorante, mas feliz de uma maneira pura, apenas por saber que tenho algum destino, algo que me espera, algo verdadeiramente superior, senti qualquer coisa no limiar da inveja, e pergunto-me, Como posso invejar alguém cujas crenças são contraditórias às minhas, se é que tenho algumas. É mais que certo e sabido que a consciência é quase sinónimo de infelicidade e angústia, quanto mais conscientes estamos mais questionamos, e quanto mais questionamos menos respostas obtemos, e esta consciência, esta exagerada consciência da transitoriedade da vida, passa pelo fenómeno do conhecimento, afinal, e se queremos ir à essência da questão, foi o conhecimento do bem e do mal que, segundo a religião cristã, trouxe o pecado e o sofrimento ao mundo, e neste ponto não posso deixar de me questionar, mais uma vez, e o que é isso do bem e do mal, o que define o bem e o mal, quais os critérios, quem decidiu, como, porquê, as mesmas questões que se aplicam a tudo o que me rodeia. Por outro lado, a ignorância, ou ignorantia em latim, de sua definição estado da mente em que não se formula qualquer juízo acerca de um objecto, é quase sinónimo de felicidade no seu estado mais puro, não conhecemos o bem mas também não conhecemos o mal, logo, não o praticamos. Ao contrário do que seria de esperar, já que quem ouvia a forma como a senhora falava de um mundo tão perfeito de uma forma tão convincente por ela mesma acreditar no que dizia, pelo menos pelos mais crentes, ainda fiquei mais céptica, pensei e repensei, Ainda estou à procura da minha resposta, uma resposta que nunca mais vem, não a encontro, com certeza, na religião, mas oh, o que eu dava na vida para ter cedido à vontade de fraquejar que senti enquanto a ouvia, se isso significasse uma vida cheia de significado e felicidade, o que eu não dava para ser ignorante, crente, e livre de angústias existencialistas. Mas o conhecimento é daquelas coisas, é como o vício, uma vez experimentado, já não se sabe o que é viver sem o objecto de vício, nem se imagina como o resto das pessoas que não têm esse vício conseguem viver. Resolvi entregar-me de novo às coisas triviais da vida, aos pensamentos mundanos, a entregar a minha candidatura para erasmus, ao desejo de diversão e evasão, ao prazer da satisfação dos prazeres imediatos.

É que isto, de pensar demais, dói. Não vivo, vou sobrevivendo, tapando buracos aqui e ali com cimento de 5ª categoria, tapam uns, abrem outros.

Escrito algures em 2010.

sábado, 6 de outubro de 2012

Ecdise.

Ecdise - segundo a wikipédia, ecdise é o nome científico dado ao fenómeno da mudança de pele em alguns animais; ainda segundo a mesma fonte, cito, "a possibilidade de mudar a pele permite-lhes também mudarem de forma, as metamorfoses que permitem que o animal se adapte a novos ambientes"; segundo outro sítio na internet, "é um processo normal e desejável, que promove a renovação dos tecidos e o crescimento".

Após reflectir - agora estou numa fase reflectiva - cheguei à conclusão de que o facto de, ultimamente - e sem mais rodeios, assim preto no branco, mesmo que fique mal, mesmo que "não faça o meu estilo", mesmo que deva ser positiva, ora que há momentos em que me apetece mandar o pensamento positivo à fava e deixa que me sinta na merda - a razão para eu andar tão insatisfeita e tão sensível e tão inconformada com tudo ultimamente, nada se trata mais do que, apenas, uma mudança, muito grande, uma metamorfose, uma espécie de mudança de pele.

Vim agora de uma experiência de vida, que tive a oportunidade de usufruir, e que me mudou muito. Fez-me crescer muitíssimo. Em muitos os aspectos, seriam demais para listá-los aqui. Uma das mudanças, a meu ver em termos de crescimento, foi o da forma como me vejo a mim mesma. Já não me vejo como aquela miúda que só quer fazer o que gosta, e desde que haja comida e internet em casa, e desde que os meus pais me dêem algum dinheiro para eu me divertir com os meus amigos e comprar roupas novas, então sou feliz. Sim, porque dantes eu era assim, apenas preocupada com os prazeres imediatos, um pouco a atirar para o fútil e pior, não dava valor a nada. Agora não, agora vejo-me como uma pessoa muito mais responsável e com muito mais consideração pelas outras pessoas (nomeadamente pelos meus pais), uma pessoa que sabe ficar grata com muito mais. Já me preocupo mais do que aquilo que constitui prazer imediato, já penso mais à frente, já tenho outra perspectiva. E com esta mudança de perspectiva, veio a vontade de "voar". A verdadeira razão por que eu tenho andado triste não é tanto pelas coisas objectivas que me chateiam, as coisas do dia-a-dia, os problemas que toda a gente tem, as coisas que chateiam e que moem, as más notícias todos os dias no jornal da noite, a mãe que diz isto ou o pai que diz aquilo, mas sim porque esta volta à minha antiga realidade está a ser um choque e um confronto enormes comigo mesma e com o que eu era antes. É uma transição psicológica, uma completa falta de ajustamento entre o que eu sou e estar a viver de novo a vida que vivia antes, quando era outra pessoa,de certa forma. E por isso é que eu quero, sinto esta vontade imensa de mudar. Ainda não sei como, mas sei lá, sinto vontade de mudar a minha vida de alguma forma! Sinto que o meu modo de viver não corresponde à pessoa que sou, ou à forma como me vejo, à minha nova identidade, porque criei uma. E sinto que tenho de fazer algo em relação a isso, sob pena de nunca me sentir completamente satisfeita comigo mesma.

Esta é a melhor forma que encontrei para explicar que não é tanto pelas circunstâncias do quotidiano, as coisas que correm menos bem, que me sinto insatisfeita, eu sei que tudo isso são apenas estados de coisas que são temporários, e passageiros, e mudam sempre, e que vão passar, e que vão melhorar; é uma questão muito mais profunda do que isso, é uma questão de transição psicológica, uma transição de identidade e diria até, alma; é uma constante insatisfação e incomformidade que sinto em relação ao abismo gritante que vejo entre mim e o resto do mundo; e que preciso mudar, que preciso reduzir este abismo, que tenho de encontrar uma forma de me ajustar ou encontrar outra realidade que se ajuste melhor a mim. Não é algo necessariamente mau, é algo que motiva e incentiva a mudança, que me motiva a ir à procura, e a descobrir, e a viver melhor.


Eu mudei, muito, por dentro (e por fora), mas nada mudou em relação a quando eu parti; o mundo continua a girar apesar das minhas dores existenciais, e o que posso eu fazer? Mudar de pele. Mudar de vida. Mudar, mudar, mudar. Dê lá por onde der, ainda hei-de arranjar uma forma de mudar alguma coisa.

Enfim, são apenas algumas “dores do crescimento”. Fazem parte, e fazem falta para crescer.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

A cor dos meus pensamentos.



São laranja, rosa, vermelho. São pretos, castanhos, bordeaux, cinzentos. Quero que os meus pensamentos coloridos e menos coloridos, moldados pelo tempo e pela experiência, saiam do meu corpo. Tenho medo de mim própria. Os meus pensamentos são tão confusos que não consigo organizá-los de uma forma coerente e satisfatória. Nunca satisfatória. Os meus pensamentos são tão abstractos, tão feitos de nada, alguma coisa no ar apenas. Não são compostos por palavras, mas sim por imagens, o que por vezes me inabilita de me ouvir a mim própria, ou até mesmo ter um diálogo comigo mesma. O que escrevo, o que falo, o que faço, vem directamente de imagens, apenas e só imagens, do que penso que falo comigo mesma. Gosto de ouvir outras pessoas e gosto de fazer perguntas acerca de como pensar, mesmo quando não quero que a minha forma de pensar seja especificamente aquela, ou mesmo quando aquele pensamento já viveu e viveu na grande sala que é a minha mente, porque consigo ouvir as outras pessoas por palavras, palavras concretas, palavras quase palpáveis.

Estes pensamentos, estes pensamentos que acabei de escrever acerca dos meus pensamentos, não me abandonam, nunca irei ver-me livre deles. Acumulam-se como camadas de pó coloridas, embaciando assim a cor viva de que são feitas as paredes dos quartos do meu corpo e da minha mente. Eu penso sobre ser, sobre fazer, sobre sentir, sobre agir. Eu penso sobre pensar.

Mas eu só quero ser. Não quero mais este estado mental, nem os futuros estados mentais que nunca consigo prever. Não quero preocupar-me, não quero trabalhar, não quero procrastinar, não quero estudar, não quero aprender, não quero pensar, não quero sentir, não quero viver com a intensidade com que sempre vivo. Não quero ser feliz, nem infeliz, não quero estar alegre nem tampouco triste. Eu só quero existir. Hoje, só hoje, eu quero meramente existir. Esta vida destituída de qualquer significado. Esta vida cheia de pequenas coisas, aleatórias, inimportantes, pelas quais passamos sem nunca reparar, estas coisas às quais insisto em dar um significado inventado. 

Hoje quero apenas sentir o absurdo da vida, esperar que esteja presente esta coisa que se ausenta tanto, esta coisa que está sempre ausente, o que torna ainda maior a sua presença. Está presente porque é feito de ausência. É um buraco negro cheio de nada. É um absurdo.

Sei que só tenho de mudar a minha forma de pensar, e o facto de pensar tanto.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Do tempo.

O tempo tem uma forma muito peculiar de passar. Aliás, para passar, o tempo tem de ser. Tem de existir, e teve de ser inventado. Quem um dia teve a ideia de inventar o tempo? De medir a vivência humana desse modo, dividida em anos, meses, semanas, dias, horas...?

O tempo, para mim, é uma coisa muito estranha. O tempo sempre passa da mesma forma, mas está na nossa mente a forma como passamos o tempo. Esticar minutos, ou até mesmo segundos, que queríamos viver para sempre, assim como afogar horas, dias, semanas ou meses que queremos que passem "rápido" é, creio, uma faculdade mental que pode ser treinada. É uma arte, até.

Afinal de contas, apesar do tempo ser medível, nomeável em termos de números concretos e objectivos, milisegundos, segundos, minutos, horas... o tempo é sempre uma experiência altamente subjectiva. Uma hora tem e sempre terá 60 minutos. Mas horas houve na minha vida em que me pareceu ter bastante menos, ou bastante mais.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Um dia do ano passado.



Páro nos semáforos, uma pressa invade-me para atravessar a estrada
Nada me espera do outro lado, mas nada me prende deste: é por isso que quero ir.
Depressa, rápido, continuar, mover, para a frente, para o mais próximo futuro.
A luz vermelha nunca mais cai para verde. Os peões estão impacientes,
Os ciclistas estão impacientes,
Os condutores estão impacientes.
Não posso deixar de pensar que, ainda que seja hora de ponta
E todas as luzes da cidade me estejam a provocar uma maravilhosa sensação de bliss,
É tão ridícula a forma como as pessoas se apressam.
Querem tudo para hoje, para ontem se possível,
Vendem-se a si mesmas à rapidez de uma forma absurda.
Um momento. Apercebo-me de repente que me enquadro nestas “pessoas”.
E é assustador.
Os 2 minutos em que permaneci no semáforo à espera que o mesmo caísse
Pareceram-me meia-hora.
Mais ainda: o tempo de uma vida inteira.
Pensei para mim mesma que tenho de começar a apreciar estes pequenos momentos:
Esperar que o semáforo caia para verde, no centro de Amesterdão.
O que por si mesmo, é uma experiência.
Deixar de estar sempre à espera. Ou sempre a correr.
À espera de algo, à espera de alguém, à espera do dia.

Este dia foi o dia em que eu me tornei consciente do quão fundamental é: parar para pensar; parar e apreciar; parar e viver. Parar nem sempre é morrer. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Devaneios

Quem sou eu? Não sei, nunca soube, sempre soube, sou feita de tudo. O meu ser é feito de discordâncias enormes e gritantes. Sou demasiado incerta. Inúmeras vezes dou por mim a questionar e a ser incoerente acerca das minhas próprias crenças e opiniões. Tenho um ego irritantemente grande, procuro constantemente por reconhecimento alheio, apesar de me amar por dentro e por fora. É o que mais odeio em mim, a procura constante por me sentir importante, se pudesse livrar-me de algo na minha personalidade, seria isto. Eu não quero querer saber o que acham de mim. Nem tampouco quero que algumas opiniões alheias (não todas, obstante) seja tão importante como por vezes é. 

Sou egocêntrica, sou egoísta, e apesar de acreditar numa qualquer espécie de união entre todos os seres humanos, unidade, cooperação e ajuda, no final do dia os meus próprios interesses vêm primeiro e creio que toda a gente assim é. Sou superficial e fútil, sou materialista, adoro aparências, mas sou simultaneamente espiritual e essencial. Consigo ver a preciar felicidade pura, ecstática e intensa nas mais pequenas coisas que a vida tem para oferecer, porque tive o privilégio de a experienciar. Gosto de experimentar, gosto da ansiedade, da adrenalina, da expectativa, de fazer algo que nunca fiz. 

Sou complicada, sou simples, sou indefinível. Gosto de dar nas vistas, mas não gosto de me esforçar para tal. Antes quero ficar quieta no meu canto, ser sozinha e só, e esperar que me notem. Estou sempre à espera de algo, já me esqueci de como é não estar à espera. Não gosto de não ter um horizonte em vista, não gosto que nada seja incerto, serei para sempre uma eterna insatisfeita. Redundância? Martirizo-me por saber como hei-de me sentar a olhar para o horizonte, em vez de mergulhar neste imenso mar que se apresenta perante mim, e não descansar enquanto não "lá" chegar. Sempre um "lá" pelo qual, lá está, espero e luto sempre. É um martírio pardoxo doloroso, que faz parte do software que veio comigo, dizer a mim mesma e aos outros que tenho de parar de esperar e começar a viver, quando sei perfeitamente como fazê-lo. Vivo no presente e no futuro ao mesmo tempo, mas o meu futuro é feito de pequenos e eternos presentes, os melhores são aqueles que não planeio. O passado, esse, é um plano do qual raramente me lembro, raramente me arrependo, raramente olho para trás. Esqueci muitas das escolhas que fiz e, sobretudo, por que as fiz. Sou transparente e fiel a mim mesma e com os outros, porque sei que consigo ser tudo o que quero, tenho grande capacidade de adaptação às situações (apesar de não gostar de mudanças bruscas e frequentes, sou mais adepta da estabilidade) e auto-controlo. Sei que quem manda nas minhas emoções, motivações, ações, sou eu – ou o meu ego gigante, ou alguém que se faz passar por mim, alguém que por vezes não conheço.


Preciso ser intelectualmente estimulada. Conversas de café e palavras vazias vindas de pessoas que passam os serões à frente da televisão e nunca leram um livro do fim até ao fim, matam-me por dentro. Preciso pessoas à minha volta que me estimulem, que me ensinem, que me inspirem, que me contem episódios de vida aos quais eu diga "wow". Não é por ser má, ou injusta, ou que tenha uma mente fechada e não dê oportunidade a certas pessoas; é mais que certas pessoas estragam toda e qualquer boa expectativa e até esperança de que possa haver lugar a uma conversa minimamente interessante, quando abrem a boca. Aprendi a ter mais cuidado com o ar que me circunda, limpar o que não interessa, filtrar o melhor, e por isso talvez me possam chamar de exigente ou de conflituosa, ou de pouco dedicada ou até mesmo "desligada", quando tudo não passa de uma tentativa de me defender do que é maligno, mas sobretudo aquilo que não me interessa ou não acrescenta nada de bom à minha vida. Sou maleável, sou um rio, mas também uma estrada recta feita de alcatrão fresco. Sou indefinível e adoro redefinir-me de dia para dia. Raramente me lembro de como me defini ontem e no que concerne ao amanhã, esse, deixo sempre por definir. 

Sou, assim, livre. Livre de mim. Livre de ter de corresponder a qualquer expectativa que faça de mim mesma, porque de mim mesma espero tudo. Livre de qualquer julgamento ou obrigação moral para comigo mesma. Sou livre de mim própria porque aceitei as consequências da minha liberdade. Não gosto de ter correntes atadas às mãos, e muito menos ao pensamento. O que mais há de livre em mim, é o pensamento. Sou liberdade.

Seja como for. É sempre um tudo seja como for. Nunca é certo, nunca é errado, nunca é nada nomeável nem passível de se lhe pôr uma etiqueta. É sempre e sempre poderá ser tudo um como quer que seja, um fluído seja como for.

domingo, 30 de setembro de 2012

Voltar.

Voltar. Voltar em muitos mais sentidos do que aquele de simplesmente voltar. Voltar, muitas vezes, sem vontade nenhuma. Voltar tanto para o que sempre foi bom e maravilhoso, como para tudo o que era e continua a ser de menos bom, coisas das quais fiz uma pausa, sem pensar na volta. Nesta volta.

Voltar as costas, voltar uma página.Voltar ao antigo, ao que era, ao que já foi, e tentar que seja algo diferente do que era antes, de presente e de futuro. Voltar a focar-me. Voltar a encontrar o ponto de equilíbrio que tantas vezes me dá a sensação que perdi. Voltar e tentar encontrar o meu lugar no mundo, a minha posição nesta vida, e para onde quero ir, depois de ter partido e voltado, e realizado que nunca realmente soube qual esse lugar no mundo a que pertenço.

Voltar a pensar (demais). Voltar a sentir que já não tenho mais escape ou fuga da minha própria mente, que funciona constantemente e nunca me deixa ter um momento ou outro de paz ou mesmo clareza. Voltar a  escrever, porque quando tudo dentro de mim é caos, a sensação de controlo torna-se um pré-requisito para manter a sanidade mental.

Enfim, voltar. Voltar, retornar, continuar, recomeçar. Eu, estou de volta, agora por inteiro, feliz ou infelizmente, dependendo das ocasiões...

Mas estou de volta. Assim. Por aqui.