domingo, 22 de maio de 2011

Principezinho XI - O essencial é invisível para os olhos...


E, claro, agora já passaram seis anos… nunca contei esta história a ninguém. Quando voltei, os meus colegas tiveram uma grande alegria por eu não ter morrido. Eu estava triste, mas dizia-lhes “é do cansaço…”
Depois, fui-me consolando. Enfim… quase. Mas tenho a certeza absoluta de que o principezinho voltou para o planeta dele. (…) E, à noite, gosto de me pôr a ouvir as estrelas. São mesmo quinhentos milhões de guinzinhos…

Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?

Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.

Outras vezes, penso: “Uma distracção e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guinzinhos se transformam em lágrimas!

Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principexinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa…

Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…

E nunca nenhuma pessoa crescida há-de entender como isso é importante!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Principezinho X - O essencial é invisível para os olhos...


(…)

- O que é importante não se vê…

- Pois não…

- É como com a flor. Quando se ama uma flor que está plantada numa estrela, é bom olhar para o céu. Todas as estrelas ficam floridas…

- Pois ficam…

- E é como a água. A que tu me deste de beber parecia uma música, por causa da roldana e da corda… Lembras-te?... Era tão boa!

- Pois era...

- Daqui a tempos, quando estiveres outra vez em casa, vais-te pôr à noite a olhar para as estrelas. A minha é pequenina demais para ser ver daqui e eu ta poder mostrar. Mas é melhor assim: para ti, qualquer estrela vai ser a minha estrela. Vais gostar de olhar para as estrelas todas… todas elas passam a ser tuas amigas.

(…)

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Ainda para outros, os cientistas, são problemas. Para o meu homem de negócios, eram outro. Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém…

- isso quer dizer o quê?

- à noite, vais-te pôr a olhar para o céu e, porque eu moro numa delas, porque eu me estou a rir numa delas, então, para ti, vai ser como ser todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que tem estrelas a rir!

Voltou a rir.

- E quando estiveres consolado (afinal acabamos sempre por nos consolar), vais ficar contente de me teres conhecido. Vais ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vais abrir a janela, só por ser bom… E os teus amigos vão ficar espantados por te verem a olhar para o céu e a rir. Mas tu dizes-lhes: “Pois é! As estrelas dão-me sempre vontade de rir!” E eles vão ficar a pensar que não estás bom da cabeça. Bela partida a minha…

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Principezinho IX - O essencial é invisível para os olhos...


“- Os homens bem se encafuam dentro dos comboios, mas já não sabem do que andam à procura – disse o principezinho. – Andam sempre à roda.”

(…)

- Os homens da tua terra são capazes de plantar cinco mil rosas no mesmo sítio… - disse o principezinho. – E, apesar de terem um jardim com muitas rosas, não descobrem aquilo de que andam à procura… e podiam descobrir aquilo de que andam à procura numa única rosa ou num único golo de água.

- Pois era – respondi eu.

O principezinho acrescentou:

- Mas os olhos são cegos. Só se procura bem com o coração.

(…)

Quando nos deixamos cativar, é certo e sabido que algum dia alguma coisa nos há-de fazer chorar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Principezinho VIII - O essencial é invisível para os olhos



“É bom ter tido um amigo, mesmo quando se vai morrer”
“O que torna o deserto bonito é ele ter um poço escondido algures por aí… (…) o que lhes dá beleza nunca se vê!”

sábado, 14 de maio de 2011

Principezinho VII - O essencial é invisível para os olhos

- Olá, bom dia! – disse o principezinho.

- Olá, bom dia! – disse o vendedor.

Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.

- Andas a vender isso porquê?

- Porque é uma enorme economia de tempo – respondeu o vendedor. – Os cálculos foram feitos por peritos. Pouparam-se cinquenta e três minutos por semana.

- E com esses cinquenta e três minutos faz-se o quê?

- Faz-se o que se quiser…

“Eu”, pensou o principezinho, “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me a andar muito calmamente à procura de uma fonte”.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Principezinho VI - O essencial é invisível para os olhos


Foi então que apareceu a raposa.

- Olá, bom dia! – disse a raposa.

- Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.

- Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.

- Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…

- Sou uma raposa – disse a raposa.

- Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho – estou tão triste…

- Não posso ir brincar contigo. Ainda ninguém me cativou…

- Ah! Então, desculpa!

Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:

- “Cativar”, quer dizer o quê?

(…)

- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…

- Criar laços?

- Sim, laços – disse a raposa. Ora vê: por enquanto, tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não +recisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…

- Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…

- É bem possível – disse a raposa. – vê-se cada coisa cá na Terra…

- Oh! Mas não é na Terra!

(…)

- Não há bela sem senão… - suspirou a raposa.

Mas voltou a insistir na mesma ideia:

- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma musica. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do outro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…

A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo.

- Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.

- Eu bem gostava – respondeu o principezinho – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer…

- Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!

- E tenho de fazer o quê? – disse o principezinho.

- Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonta de mal-entendidos. Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto…

O principezinho voltou no dia seguinte.

- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.

- O que é um ritual?

- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros, e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.

E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora de despedida:

- Ai! – suspirou a raposa. – Ai que me vou pôr a chorar…

- A culpa é tua – disse o principezinho – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…

- Pois pedi – disse a raposa.

- Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.

- Pois vou – disse a raposa.

- Então não ganhaste nada com isso!

- Ai ganhei, sim senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…

E acrescentou:

- Anda, vai ver as rosas outra vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a cem mil outras raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.

E as rosas ficaram bastantes arreliadas.

- Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho – não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha, é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, algumas vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:

- Adeus…

- Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou contar-te o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…

- O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa…

- Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és a responsável pela tua rosa…

- Eu sou o responsável pela minnha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

domingo, 8 de maio de 2011

O Principezinho IV - O essencial é invisível para os olhos...

Às vezes, quando queremos ter graça, damos por nós a mentir. Devo confessar que não foi muito honesto da minha parte pôr-me a falar dos acendedores de candeeiros. Quem não conheça o nosso planeta, pode ficar com uma ideia errada dele. Na realidade, os homens só ocupam uma pequena porção da Terra. Se os dois mil milhões de habitantes da Terra se pudessem de pé ao lado uns dos outros, como num comício, cabiam todos, à vontade, numa praça de vinte milhas de comprimento por vinte milhas de largura. Bem amontoada, a Humanidade cabia toda inteira na olhota mais pequena do Oceano Pacífico.

As pessoas crescidas, é claro, não vão acreditar. Pensam que ocupam muito espaço. Julgam-se tão importantes como embondeiros. Assim, é melhor vocês dizerem-lhes para fazerem as contas. As pessoas crescidas adoram números e ficam logo satisfeitas. Mas vocês, vocês que confiam em mim, não percam tempo a repetir tudo. Eu fiz as contas…

Uma vez, na Terra, o principezinho ficou muito admirado por não ver ninguém. Já estava com medo de se ter enganado de planeta, quando viu um anel da cor da lua a mexer na areia.

- Olá, boa noite! – lançou o principezinho para os ares, a ver o que aquilo dava.

- Olá, boa noite! – disse a serpente.

- Em que planeta caí eu? – perguntou o principezinho

- Na Terra, em África – respondeu a serpente.

- Ah!... E então na Terra não há ninguém?

- Aqui é o deserto. Nos desertos não há ninguém. A Terra é muito grande – disse a serpente.

O principezinho sentou-se numa pedra e olhou para o céu:

- Se calhar, as estrelas só têm luz para cada um de nós um dia encontrar a sua. Olha o meu planeta. Está mesmo aqui por cima… e fica tão longe!

(…)

- Por onde andam os homens? – perguntou o principezinho, passado algum tempo. – No deserto está-se um bocado sozinho…

- Também se está sozinho ao pé dos homens – disse a serpente.

O principezinho observou-a durante muito tempo e disse:

- Que bicho mais engraçado que tu me saíste! Fina como um dedo…

- Mas muito mais poderosa do que o dedo de um rei – disse a serpente

O principezinho sorriu:

- Não és nada… Nem sequer tens patas… nem sequer podes viajar…

- E posso levar-te muito mais longe do que um navio – disse a serpente.

Enrolou-se à volta do tornezelo do principezinho, como uma pulseira de ouro, e continuou:

- quando toco em alguém, devolvo-o imediatamente à terra de onde saiu. Mas tu és puro e vieste de uma estrela…

O principezinho não respondeu.

- Tenho dó de ti, assim, tão fraco, nesta Terra de granito. Se um dia tiveres muitas saudades do teu planeta, eu posso ajudar-te. Posso…

- Oh! Escusas de continuar, eu já percebi! – disse o principezinho. – Mas porque só falas por enigmas?

- Resolvo-os a todos – disse a serpente.

E ambos se calaram.