quarta-feira, 18 de maio de 2011

Principezinho IX - O essencial é invisível para os olhos...


“- Os homens bem se encafuam dentro dos comboios, mas já não sabem do que andam à procura – disse o principezinho. – Andam sempre à roda.”

(…)

- Os homens da tua terra são capazes de plantar cinco mil rosas no mesmo sítio… - disse o principezinho. – E, apesar de terem um jardim com muitas rosas, não descobrem aquilo de que andam à procura… e podiam descobrir aquilo de que andam à procura numa única rosa ou num único golo de água.

- Pois era – respondi eu.

O principezinho acrescentou:

- Mas os olhos são cegos. Só se procura bem com o coração.

(…)

Quando nos deixamos cativar, é certo e sabido que algum dia alguma coisa nos há-de fazer chorar.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Principezinho VIII - O essencial é invisível para os olhos



“É bom ter tido um amigo, mesmo quando se vai morrer”
“O que torna o deserto bonito é ele ter um poço escondido algures por aí… (…) o que lhes dá beleza nunca se vê!”

sábado, 14 de maio de 2011

Principezinho VII - O essencial é invisível para os olhos

- Olá, bom dia! – disse o principezinho.

- Olá, bom dia! – disse o vendedor.

Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.

- Andas a vender isso porquê?

- Porque é uma enorme economia de tempo – respondeu o vendedor. – Os cálculos foram feitos por peritos. Pouparam-se cinquenta e três minutos por semana.

- E com esses cinquenta e três minutos faz-se o quê?

- Faz-se o que se quiser…

“Eu”, pensou o principezinho, “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me a andar muito calmamente à procura de uma fonte”.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Principezinho VI - O essencial é invisível para os olhos


Foi então que apareceu a raposa.

- Olá, bom dia! – disse a raposa.

- Olá, bom dia! – respondeu educadamente o principezinho, que se virou para trás mas não viu ninguém.

- Estou aqui, debaixo da macieira – disse a voz.

- Quem és tu? – perguntou o principezinho – És bem bonita…

- Sou uma raposa – disse a raposa.

- Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho – estou tão triste…

- Não posso ir brincar contigo. Ainda ninguém me cativou…

- Ah! Então, desculpa!

Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:

- “Cativar”, quer dizer o quê?

(…)

- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer “criar laços”…

- Criar laços?

- Sim, laços – disse a raposa. Ora vê: por enquanto, tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não +recisas de mim. Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…

- Parece-me que estou a perceber – disse o principezinho – Sabes, há uma certa flor… tenho a impressão que ela me cativou…

- É bem possível – disse a raposa. – vê-se cada coisa cá na Terra…

- Oh! Mas não é na Terra!

(…)

- Não há bela sem senão… - suspirou a raposa.

Mas voltou a insistir na mesma ideia:

- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas parecidas umas com as outras e os homens são todos parecidos uns com os outros. Por isso, às vezes, aborreço-me muito. Mas, se tu me cativares, a minha vida fica cheia de sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma musica. E depois, repara! Estás a ver aqueles campos de trigo ali adiante? Eu não gosto de pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do outro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do som do vento a bater no trigo…

A raposa calou-se e ficou a olhar para o principezinho durante muito tempo.

- Se fazes favor… Cativa-me! – acabou finalmente por pedir.

- Eu bem gostava – respondeu o principezinho – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer…

- Só conhecemos o que cativamos – disse a raposa. – Os homens deixaram de ter tempo para conhecer o que quer que seja. Compram as coisas já feitas aos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens deixaram de ter amigos. Se queres um amigo, cativa-me!

- E tenho de fazer o quê? – disse o principezinho.

- Tens de ter muita paciência. Primeiro, sentas-te longe de mim, assim, na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonta de mal-entendidos. Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto…

O principezinho voltou no dia seguinte.

- Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. – Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto. Às quatro em ponto hei-de estar toda agitada e toda inquieta: fico a conhecer o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca vou saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito… Precisamos de rituais.

- O que é um ritual?

- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – É o que torna um dia diferente dos outros, e uma hora diferente das outras horas. Por exemplo, os meus caçadores têm um ritual. À quinta-feira, vão dançar com as raparigas da aldeia. Por isso, quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear às vinhas. Se os caçadores fossem dançar num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.

E o principezinho cativou a raposa. Mas quando se aproximou a hora de despedida:

- Ai! – suspirou a raposa. – Ai que me vou pôr a chorar…

- A culpa é tua – disse o principezinho – Eu não te desejava mal nenhum, mas tu pediste para eu te cativar…

- Pois pedi – disse a raposa.

- Mas agora vais-te pôr a chorar! – disse o principezinho.

- Pois vou – disse a raposa.

- Então não ganhaste nada com isso!

- Ai ganhei, sim senhor! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…

E acrescentou:

- Anda, vai ver as rosas outra vez. Vais entender que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

O principezinho foi ver as rosas outra vez.

- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. Ninguém vos cativou e vocês não cativaram ninguém. São como a minha raposa era, uma raposa perfeitamente igual a cem mil outras raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e ela passou a ser única no mundo.

E as rosas ficaram bastantes arreliadas.

- Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho – não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas, sozinha, é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, algumas vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa.

Depois voltou para o pé da raposa e despediu-se:

- Adeus…

- Adeus – despediu-se a raposa. – Agora vou contar-te o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos…

- O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa…

- Os homens já não se lembram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és a responsável pela tua rosa…

- Eu sou o responsável pela minnha rosa… - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

domingo, 8 de maio de 2011

O Principezinho IV - O essencial é invisível para os olhos...

Às vezes, quando queremos ter graça, damos por nós a mentir. Devo confessar que não foi muito honesto da minha parte pôr-me a falar dos acendedores de candeeiros. Quem não conheça o nosso planeta, pode ficar com uma ideia errada dele. Na realidade, os homens só ocupam uma pequena porção da Terra. Se os dois mil milhões de habitantes da Terra se pudessem de pé ao lado uns dos outros, como num comício, cabiam todos, à vontade, numa praça de vinte milhas de comprimento por vinte milhas de largura. Bem amontoada, a Humanidade cabia toda inteira na olhota mais pequena do Oceano Pacífico.

As pessoas crescidas, é claro, não vão acreditar. Pensam que ocupam muito espaço. Julgam-se tão importantes como embondeiros. Assim, é melhor vocês dizerem-lhes para fazerem as contas. As pessoas crescidas adoram números e ficam logo satisfeitas. Mas vocês, vocês que confiam em mim, não percam tempo a repetir tudo. Eu fiz as contas…

Uma vez, na Terra, o principezinho ficou muito admirado por não ver ninguém. Já estava com medo de se ter enganado de planeta, quando viu um anel da cor da lua a mexer na areia.

- Olá, boa noite! – lançou o principezinho para os ares, a ver o que aquilo dava.

- Olá, boa noite! – disse a serpente.

- Em que planeta caí eu? – perguntou o principezinho

- Na Terra, em África – respondeu a serpente.

- Ah!... E então na Terra não há ninguém?

- Aqui é o deserto. Nos desertos não há ninguém. A Terra é muito grande – disse a serpente.

O principezinho sentou-se numa pedra e olhou para o céu:

- Se calhar, as estrelas só têm luz para cada um de nós um dia encontrar a sua. Olha o meu planeta. Está mesmo aqui por cima… e fica tão longe!

(…)

- Por onde andam os homens? – perguntou o principezinho, passado algum tempo. – No deserto está-se um bocado sozinho…

- Também se está sozinho ao pé dos homens – disse a serpente.

O principezinho observou-a durante muito tempo e disse:

- Que bicho mais engraçado que tu me saíste! Fina como um dedo…

- Mas muito mais poderosa do que o dedo de um rei – disse a serpente

O principezinho sorriu:

- Não és nada… Nem sequer tens patas… nem sequer podes viajar…

- E posso levar-te muito mais longe do que um navio – disse a serpente.

Enrolou-se à volta do tornezelo do principezinho, como uma pulseira de ouro, e continuou:

- quando toco em alguém, devolvo-o imediatamente à terra de onde saiu. Mas tu és puro e vieste de uma estrela…

O principezinho não respondeu.

- Tenho dó de ti, assim, tão fraco, nesta Terra de granito. Se um dia tiveres muitas saudades do teu planeta, eu posso ajudar-te. Posso…

- Oh! Escusas de continuar, eu já percebi! – disse o principezinho. – Mas porque só falas por enigmas?

- Resolvo-os a todos – disse a serpente.

E ambos se calaram.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O Principezinho III - O essencial é invisível para os olhos...


(…) – Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa: minha ou dele?

- Era Vossa – respondeu firmemente o principezinho.

- Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar – prosseguiu o rei. A autoridade baseia-se, antes de mais, no bom senso. Se um rei ordenar ao seu povo que se deite ao mar, ele revolta-se. Eu, eu tenho o direito de exigir obediência porque as minhas ordens são sensatas.

(…)

- Não tenho mais nada a fazer aqui! Disse ao rei – Vou-me embora.

- Não te vás embora – respondeu o rei, que estava tão orgulhoso por ter um súbdito – Não te vás embora, eu faço-te ministro!

- Ministro de quê?

- De… de justiça!

- Mas não há aqui ninguém para julgar!

- Nunca se sabe – disse-lhe o rei. – Ainda não dei a volta ao meu reino. Estou muito velho, não tenho espaço para uma carruagem e cansa-me andar a pé.

- Mas eu já dei a volta a tudo – disse o principezinho. – Do outro lado também não há ninguém…

- Então, julgas-te a ti próprio – respondeu o rei. – É o mais difícil de tudo. É muito mais difícil julgarmo-nos a nós próprios do que aos outros. Se conseguires julgar-te bem a ti próprio, és um autêntico sábio.

- Mas eu posso julgar-me a mim próprio em qualquer lugar. Não preciso viver aqui.

- Bom…bom… - disse o rei. – Tenho a impressão que anda por aí uma velha ratazana. Costumo ouvi-la à noite. Podes julgar essa ratazana. De tempos a tempos, condena-la à morte, e a vida dela fica suspensa da tua justiça. Depois agracia-la sempre. Como só há uma…

- Mas eu não gosto de condenar à morte – respondeu o principezinho. – Acho que me vou mesmo embora.

- Não vás – disse o rei.

O principezinho acabou os preparativos. Como não queria magoar o velho monarca, sugeriu:
- Vossa Majestade: se desejais ser pontualmente obedecido, tendes agora uma boa oportunidade de dar uma ordem sensata. Ordenai, por exemplo, que eu já aqui não esteja dentro de um minuto. As condições parecem-me as mais favoráveis…

O rei não respondeu. Primeiro, o principezinho hesitou: depois, deu um suspiro e foi-se embora.

- Faço-te meu embaixador! – apressou-se a gritar o rei.

E arvorava uns ares de grande autoridade.

“As pessoas crescidas são mesmo muito esquisitas”, foi o principezinho a pensar durante a viagem.